Para Nadine Borges, integrante da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, policiais infiltrados são legado autoritário da ditadura
1º/08/2013
Vivian Virissimo,
do Rio de Janeiro (RJ)
|
Prisões
ilegais e policiais infiltrados são exemplos contundentes que métodos
da ditadura são praticados até hoje pela Polícia Militar (PM). Essa é a
opinião de Nadine Borges que faz parte da Comissão Estadual da Verdade
do Rio de Janeiro. Em sua avaliação, somente a investigação atenta dos
fatos do passado e do presente pode evitar que ditaduras voltem a
assombrar o país. “Se aceitarmos de maneira pacífica os abusos do Estado
podemos novamente viver uma ditadura”, alerta. Nesta entrevista, Nadine
analisa a conduta da polícia nas recentes manifestações.
Nadine Borges –
Não temos como investigar o passado sem nos preocuparmos com o
presente. Esse ‘ontem’ não resolvido é o que permite a continuidade das
violações no ‘hoje’. Além disso, um dos deveres da comissão é recomendar
a adoção de políticas públicas para evitar a repetição das violações de
direitos humanos.
Nas manifestações, a PM atuou com infiltrados. Como você avalia essa conduta?
O
padrão é o mesmo da ditadura. A prática não mudou em nada. O que
vivemos no último período demonstra que esse legado autoritário continua
presente na atuação das forças policiais que são despreparadas para
garantir a ordem pública e a integridade das pessoas. Detenções ilegais
são práticas de Estados autoritários.
E o uso abusivo de bombas e balas de borracha para conter manifestações pacíficas?
Isso
ocorre principalmente pelo despreparo dos agentes policiais. Eles
reproduzem métodos da ditadura porque não recebem uma formação adequada.
Policiais infiltrados desrespeitam os cidadãos que possuem ampla
defesa. Pessoas foram detidas sem ter investigação contra elas. Essa
arbitrariedade é resquício da ditadura que alimenta uma cultura de medo e
impede a livre manifestação do pensamento, direito que foi conquistado
depois de séculos de luta e resistência. Um Estado de exceção é criado
quando temos medo daqueles que deveriam nos proteger.
Outro
episódio envolveu Bruno Teles, acusado de portar uma mochila com
coquetéis molotov. Depoimentos de policiais revelaram que essa versão
era falsa. Esse tipo de comportamento era comum na ditadura?
Era.
Porque foi na época da ditadura que surgiu essa ideia de prisão
arbitrária. Prende primeiro e depois investiga. Isso era corriqueiro
contra a militância que era detida ‘para averiguação’. Isso é similar ao
que aconteceu agora. Mesmo assim, afirmo que não podemos perder a
confiança no Estado, caso contrário corremos o risco de viver um estado
de guerra.
Recentemente,
um decreto do governo Cabral dava poderes a uma comissão que poderia
violar a privacidade de suspeitos de vandalismo. A medida gerou
protestos e foi descartada. Por que o Estado não pode agir dessa forma?
Porque
temos uma Constituição e isso fere os princípios basilares do Estado
Democrático de Direito. O Estado não pode desrespeitar a liberdade de
expressão e de pensamento. Isso gera insegurança e medo de que a
história se repita. Se não ficarmos atentos e alertas, a barbárie pode
se repetir. Se aceitarmos de maneira pacífica os abusos do Estado,
podemos novamente viver uma ditadura. É o que acontece, por vezes, na
atuação da polícia em execuções sumárias que ocorrem na periferia. E,
nos últimos dias, em regiões da cidade que não estavam acostumadas a
viveram a truculência da polícia. Por isto repito: precisamos formar os
policiais.
Após
manifestação dos 300 mil, o secretário de segurança Mariano Beltrame
defendeu a atuação do Exército contra o povo que pedia melhores
condições de vida. Qual a sua opinião sobre isso?
O
uso das Forças Armadas só pode ser justificado em casos previstos em
lei. De forma alguma o que ocorreu no Rio nesses dias justificaria a
presença do Exército. Por isso se fala na necessidade de
desmilitarização da polícia. A polícia não pode ter o cidadão como
inimigo. A polícia tem outro papel: garantir a ordem e a integridade das
pessoas. Não se pode inverter isso.
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